AVALIADOR AVALIADO


Entrou, sentou, arrumou o retrovisor, o cinto, deixou tudo em ordem. Engatou a primeira, ligou, saiu e pum! - Pum? Como Pum? - Indagou-se.
Pode descer- Disse o fiscal do Detran
- Como descer? Nem comecei, descer já? Fiz tudo certinho, até o cinto.
- Sinto muito, mas o senhor não ouviu o barulho?
- Claro, o pum! Ouvi, e daí?
- Você bateu.
- Bati. Bati? Bati em quê?
- Num cone, oras.
- E vou ter que sair porque bati num cone? Mas que despautério.
- Que nada, imagine só, poderia ser uma pessoa, uma criança, seu filho.
- Filho? Não tenho filho.
- E daí? Seu pai, um velhinho qualquer, imagine, poderia ser você, eu.
- Você eu imagino.
- Como?
- Disse que não imagino. É um cone. Somente um cone. Um maldito cone, por sinal. Vai me reprovar por causa de um cone. São quinhentos reais e quatro meses jogados fora por causa de um mísero cone. Não acredito.
- Mas acredite. Não estaria falando assim se fosse uma pessoa. Ta vendo ali, o cone caído, entre a primeira listra e a segunda, dois olhinhos, uma boquinha entreaberta e um narizinho jorrando sangue.
- Credo! Como você tem uma imaginação fértil. Daria até pra plantar um pé de mandioca na sua cabeça.
- Ta dizendo que eu tenho excrementos na cabeça?
- Não! Nunca. Tô imaginando uma criancinha ali. Caída, gélida e tísica. Coitadinha, como pude, cruel dessa maneira. Sou um crápula, devo ser condenado à prisão perpétua, morte. Um pobre infanto-cone, um conezinho. E eu, o provedor da morte e da dor da família Cone. Todos chorando, remoendo-se de dor pela perda de um familiar. Um ente mais que querido. Minha morte não trará a vida daquela criaturinha de Deus. Deus! Deve estar triste por minha ação impensada. Não sou digno de sua morada. DEUS! Como sofro. Sabe de uma coisa, vou sair, beber, empanturrar-me de álcool, ébrio da razão. Não! Não beberei, não sou digno de mais nada desse mundo, matei um pobre cone.
- Calma! Calma, escuta. Era só um cone, somente um cone, um conezinho, como você mesmo tinha falado. Não vamos dramatizar.
- Então posso fazer meu exame?
- Não.
- Eu sei que não. Sei, matei o cone. E e se ele fosse filho único. Único! Sou um assassino.
- Péraí! Tudo bem, você pode fazer novamente. Desde que pague um módico preço pela reavaliação.
- Como assim?
- Bem, teno família, sabe, boquinhas para alimentar lá em casa. Manja “uma mão lava a outra”? Ué, você não quer fazer o teste novamente? Estou te dando a chance.
- Sabe de uma coisa? Obrigado, mas, acho que não quero.
- Como assim? Não por quê? E essa encenação toda? Você não quer ganhar sua carteira?
- Não. Na verdade já tenho.
- E por que você esta aqui então?
- Por que sou o novo chefe deste setor. Assumi após denúncias de que o antigo chefe e alguns funcionários estavam recebendo propina. Bem, agora é você pode descer.

2 comentários:

leandrão cardoso said...
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leandrão cardoso said...

É isso que tô falando, moranguinha!
hahahahahahahahahahha

Boa história, velho. Final com surpresa... bom! bom!

Tiro certeiro nos elementos de humor: "Ta vendo ali, o cone caído, entre a primeira listra e a segunda, dois olhinhos, uma boquinha entreaberta e um narizinho jorrando sangue."; "Tô imaginando uma criancinha ali. Caída, gélida e tísica. Coitadinha, como pude, cruel dessa maneira. Sou um crápula, devo ser condenado à prisão perpétua, morte. Um pobre infanto-cone, um conezinho. E eu, o provedor da morte e da dor da família Cone...".

Muito bom, velho. Diálogos bacanas. Eu geralmente não gosto de períodos muito curtos, mas você os empregou da maneira certa na fala do chefe-avaliado, dá pra ter uma boa idéia da velocidade de um discurso numa situação dessa, da mudança e da retomada de idéias em um discurso de desespero.
Bacana, meu!
Parabéns!

Só uma dica: o narrador aí é necessário mesmo só pra dar o local da cena: "Entrou, sentou, arrumou o retrovisor, o cinto, deixou tudo em ordem. Engatou a primeira, ligou, saiu e pum!". Acho que vale a pena vc colocar tudo no diálogo depois disso, tirando o "indagou-se" e o "Disse o fiscal do Detran". Dá pra concluir do texto que é uma prova prática do Detran bem como quem é o avaliador e o avaliado. O narrador não precisa dar essa informação.

Mas tá massa! Mesmo!